Mercado de Carbono

ROI de sustentabilidade: como medir o retorno financeiro das iniciativas ESG

Entenda como o ROI de sustentabilidade ajuda empresas a transformar iniciativas ESG em decisões mais estratégicas.

Autor: Miedja Okada Braga Publicado em 26/08/20269 min de leitura

Implementar iniciativas de sustentabilidade é apenas parte do trabalho. Tão importante quanto colocá-las em prática é entender quais resultados elas geram para o negócio. Afinal, como saber se os investimentos realizados estão contribuindo para reduzir custos, aumentar a eficiência operacional ou fortalecer a competitividade da empresa?

Por isso que o ROI de sustentabilidade é importante. A métrica permite avaliar o retorno obtido com iniciativas relacionadas ao ESG, considerando tanto os impactos financeiros, quanto os benefícios como redução de riscos, melhoria de processos, atendimento a exigências do mercado e geração de novas oportunidades de negócio.

Essa análise tem se tornado cada vez mais relevante à medida que investidores, clientes e regulamentações passam a exigir informações mais consistentes sobre o desempenho das organizações em relação à sustentabilidade.

O que é ROI de sustentabilidade?

O ROI (Return on Investment, ou Retorno sobre o Investimento) é um indicador utilizado para medir quanto um investimento gerou de retorno em relação ao valor aplicado.

No contexto da sustentabilidade, o ROI é utilizado para avaliar o retorno das iniciativas relacionadas à gestão ambiental, responsabilidade social e governança corporativa.

Isso significa responder perguntas como:

  • Quanto a empresa economizou após reduzir seu consumo de energia?
  • A implementação de um inventário de emissões trouxe ganhos operacionais?
  • Houve aumento da competitividade em licitações ou processos de contratação?
  • As iniciativas ambientais contribuíram para conquistar novos clientes ou mercados?

Embora esses benefícios possam ter impacto financeiro, eles nem sempre aparecem imediatamente no fluxo de caixa. Em muitos casos, o retorno acontece por meio da redução de riscos, do fortalecimento da reputação da marca, da maior eficiência operacional ou da preparação para novas exigências regulatórias.

Essa é uma das principais diferenças entre o ROI tradicional e o ROI de sustentabilidade.

Enquanto um investimento convencional costuma ser analisado apenas pelo retorno financeiro direto, as iniciativas ESG geram valor em diferentes frentes do negócio.

Como calcular o ROI de sustentabilidade?

O cálculo utiliza a mesma fórmula do ROI tradicional. A diferença está na forma de identificar os benefícios obtidos, que podem incluir desde a redução de custos operacionais até ganhos relacionados à eficiência dos processos, à gestão de riscos, ao fortalecimento da reputação e ao acesso a novos mercados.

ROI = (Benefícios obtidos – Investimento realizado) ÷ Investimento × 100

Essa fórmula é amplamente utilizada para calcular o retorno sobre investimentos em diferentes áreas. No caso da sustentabilidade, a principal diferença está na definição dos benefícios considerados.

O desafio está em definir quais benefícios devem ser considerados na análise. Em iniciativas de sustentabilidade, parte do retorno pode ser medida financeiramente, enquanto outros resultados, como a redução de riscos, o atendimento a requisitos regulatórios e o fortalecimento da competitividade, exigem uma avaliação mais abrangente.

Por que medir o ROI de sustentabilidade?

Investidores, clientes, instituições financeiras e órgãos reguladores passaram a exigir informações mais consistentes sobre riscos climáticos, emissões de carbono e impactos socioambientais. Como consequência, medir resultados tornou-se tão importante quanto implementar as iniciativas.

Segundo a IFRS Foundation, responsável pelas normas internacionais de divulgação de informações sobre sustentabilidade (IFRS S1 e IFRS S2), o objetivo dessas diretrizes é permitir que investidores compreendam como questões relacionadas à sustentabilidade afetam o desempenho financeiro e a geração de valor das empresas ao longo do tempo.

Desta forma, é necessário demonstrar resultados mensuráveis e evidências que sustentem as informações apresentadas.

O retorno nem sempre aparece na redução de custos

Quando se fala em ROI de sustentabilidade, é comum pensar imediatamente na economia de água, energia ou matérias-primas. Esses ganhos são importantes, mas representam apenas parte do retorno.

Em muitos casos, o maior benefício está na capacidade de tornar a empresa mais preparada para competir, incluindo critérios ambientais na seleção de fornecedores, por exemplo.

Instituições financeiras analisam riscos climáticos antes da concessão de crédito. Investidores avaliam a qualidade das informações divulgadas pelas empresas antes de decidir onde aplicar recursos.

Esses fatores dificilmente aparecem em uma planilha de economia operacional, mas influenciam diretamente o crescimento do negócio.

Sustentabilidade também reduz riscos

Uma empresa que monitora suas emissões, conhece sua cadeia de fornecedores e possui indicadores confiáveis tende a responder com mais rapidez às mudanças regulatórias e às exigências do mercado.

Esse movimento tornou-se cada vez mais forte com a publicação das normas internacionais de sustentabilidade e com o avanço de legislações relacionadas ao clima em diversos países.

No Brasil, a regulamentação do mercado de carbono e a adoção gradual das normas internacionais de divulgação reforçam a importância da qualidade dos dados utilizados pelas empresas.

Desse modo, medir o retorno das iniciativas sustentáveis trata-se, sobretudo, de avaliar quanto a organização está reduzindo sua exposição a riscos futuros.

Quais indicadores ajudam a medir o ROI de sustentabilidade?

Depois de definir quais benefícios serão considerados, o próximo passo é acompanhar indicadores que permitam medir esses resultados ao longo do tempo. Quanto mais consistentes forem os dados disponíveis, mais precisa será a análise do ROI de sustentabilidade.

O ponto de partida é entender que não existe um único indicador capaz de demonstrar esse retorno. Na verdade, diferentes métricas precisam ser analisadas em conjunto para mostrar como a sustentabilidade influencia o desempenho do negócio.

Indicadores financeiros

Os indicadores financeiros costumam ser os mais fáceis de mensurar porque estão diretamente relacionados aos resultados da operação.

Entre eles, destacam-se:

  • redução dos custos com energia, água e combustíveis;
  • diminuição do consumo de matérias-primas;
  • redução de desperdícios e retrabalho;
  • economia com destinação de resíduos;
  • aumento da produtividade;
  • retorno sobre investimentos em eficiência operacional.

Indicadores ambientais

Os indicadores ambientais ajudam a demonstrar se as iniciativas implementadas realmente contribuíram para reduzir os impactos da empresa sobre o meio ambiente.

Entre os principais estão:

  • emissões de gases de efeito estufa (Escopos 1, 2 e 3);
  • consumo de energia;
  • consumo de água;
  • geração e destinação de resíduos;
  • reciclagem e reaproveitamento de materiais;
  • uso de fontes renováveis de energia.

Esses indicadores costumam fazer parte do inventário de GEE, documento que permite acompanhar a evolução das emissões da empresa com o decorrer do tempo.

Indicadores estratégicos

Nem todo retorno aparece imediatamente nas demonstrações financeiras. Em alguns casos, os principais ganhos acontecem na forma de novas oportunidades de negócio.

Uma empresa que investe em sustentabilidade pode:

  • atender critérios exigidos em processos de compras corporativas;
  • ampliar sua participação em cadeias de fornecimento;
  • fortalecer o relacionamento com investidores;
  • acessar linhas de financiamento voltadas a projetos sustentáveis;
  • reduzir riscos regulatórios;
  • aumentar a confiança de clientes e parceiros.

Embora esses benefícios nem sempre possam ser convertidos diretamente em indicadores financeiros, eles influenciam diretamente a capacidade da empresa de crescer de forma sustentável.

O World Business Council for Sustainable Development (WBCSD) destaca que integrar sustentabilidade à estratégia e fortalecer a gestão de riscos contribui para o desenvolvimento de modelos de negócio mais resilientes, preparados para lidar com as mudanças econômicas e climáticas. Essa visão reforça que parte do retorno das iniciativas de sustentabilidade está na capacidade de aumentar a resiliência e a competitividade das organizações no longo prazo.

ESG e ROI de sustentabilidade: qual é a relação?

Embora muitas vezes apareçam juntos, ESG e ROI de sustentabilidade não significam a mesma coisa.

O ESG reúne práticas relacionadas aos aspectos ambientais (Environmental), sociais (Social) e de governança (Governance) que orientam a gestão da empresa. Já o ROI de sustentabilidade é uma forma de avaliar os resultados gerados por essas iniciativas.

Na realidade, um depende do outro. Sem indicadores confiáveis, torna-se difícil demonstrar que os investimentos realizados produziram benefícios concretos para o negócio. Nesse sentido, empresas vêm investindo cada vez mais na qualidade das informações relacionadas à sustentabilidade.

As normas IFRS S1 e IFRS S2, desenvolvidas pelo International Sustainability Standards Board (ISSB), reforçam essa necessidade ao estabelecer diretrizes para a divulgação de informações sobre riscos e oportunidades relacionados à sustentabilidade.

Além de divulgar boas práticas, o objetivo está em fornecer dados que possam apoiar a tomada de decisão de investidores e demais partes interessadas.

Os erros mais comuns ao medir o ROI de sustentabilidade

Mensurar o ROI de sustentabilidade ainda é um desafio para muitas organizações. Em boa parte dos casos, isso acontece porque a análise considera apenas os ganhos financeiros imediatos e deixa de lado fatores que influenciam diretamente a geração de valor no longo prazo.

Um dos erros mais frequentes é avaliar apenas a redução de custos operacionais. Economizar energia, água ou matérias-primas certamente faz parte do retorno obtido, mas dificilmente representa todo o impacto de uma estratégia de sustentabilidade bem estruturada. Benefícios como redução de riscos, fortalecimento da reputação, acesso a novos mercados e maior capacidade de atender exigências regulatórias também fazem parte dessa equação.

Outro equívoco comum é iniciar projetos sem estabelecer indicadores claros. Sem uma linha de base, torna-se difícil demonstrar quais resultados foram efetivamente alcançados. Por isso, definir métricas antes da implementação das iniciativas é tão importante quanto acompanhar sua evolução ao longo do tempo.

Também é comum esperar resultados em períodos muito curtos. Algumas iniciativas geram economia quase imediata, como projetos de eficiência energética. Outras, porém, produzem impactos graduais, especialmente aquelas relacionadas à inovação, posicionamento de mercado ou relacionamento com investidores. Avaliar esses projetos apenas pelos primeiros meses pode levar a conclusões equivocadas.

Por fim, muitas empresas analisam cada iniciativa de forma isolada. A sustentabilidade costuma gerar os melhores resultados quando faz parte da estratégia do negócio e está integrada a diferentes áreas da organização.

Como aumentar o ROI de sustentabilidade

O ROI de sustentabilidade tende a aumentar quando as iniciativas deixam de ser ações isoladas e passam a fazer parte da estratégia da empresa. Priorizar projetos com impacto operacional, acompanhar indicadores, revisar resultados periodicamente e identificar oportunidades de inovação são práticas que ajudam a gerar mais valor para o negócio no longo prazo.

ROI de sustentabilidade: uma métrica para decisões mais estratégicas

O ROI de sustentabilidade é uma ferramenta que ajuda empresas a compreender como investimentos relacionados ao ESG contribuem para aumentar a eficiência operacional, reduzir riscos, fortalecer a competitividade e apoiar decisões mais estratégicas.

Isso não significa que empresas sustentáveis terão, automaticamente, maior lucratividade. O retorno depende de diversos fatores, como o setor de atuação, a maturidade da gestão e a forma como a sustentabilidade é incorporada ao planejamento do negócio.

Por outro lado, organizações que integram esses temas à sua estratégia tendem a estar mais preparadas para responder às mudanças regulatórias, atender às expectativas de clientes e investidores e identificar novas oportunidades de crescimento.

De acordo com o Global Reporting Initiative (GRI), a adoção de padrões reconhecidos para o relato de sustentabilidade contribui para tornar as informações mais comparáveis, confiáveis e transparentes para investidores e demais partes interessadas. Esse processo fortalece a tomada de decisão e ajuda as empresas a comunicar, com mais consistência, os resultados de suas iniciativas de sustentabilidade.

Acompanhar o ROI de sustentabilidade permite, portanto, compreender quais iniciativas realmente geram valor para o negócio. Esse conhecimento ajuda a direcionar recursos, definir prioridades e construir uma estratégia baseada em dados, preparada para os desafios e oportunidades dos próximos anos.

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